Ela entrou em trabalho de parto durante uma reunião com os sócios. Deu à luz numa quarta-feira e, na segunda seguinte, já estava de volta ao trabalho. Posou grávida de oito meses para tocar o sino da bolsa de Nova York. E ainda assim, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank e uma das mulheres mais ricas do Brasil, é a primeira a dizer em voz alta o que tantas mulheres sentem na pele todos os dias: não dá pra dar conta de tudo. E tudo bem.
A história de Cristina com a maternidade se confunde com a própria história do Nubank. Ela conta que sua primeira filha nasceu junto com a empresa, tendo que conciliar as tarefas da maternidade com a estruturação de um negócio do zero. Ela entrou em trabalho de parto em uma reunião com os sócios, e sua licença-maternidade durou um total de cinco dias. “Não tive licença. Dei à luz numa quarta-feira e, na segunda-feira seguinte, estava trabalhando”, relembrou a empresária em entrevista à Forbes.
Anos depois, veio um dos registros mais marcantes de sua trajetória. Grávida de oito meses da terceira filha, Cristina tocou o sino da Bolsa de Nova York no IPO do Nubank e posou grávida para uma capa da Forbes sobre mulheres de sucesso, a apenas três dias do parto. Hoje ela é mãe de quatro filhos, e cada gravidez virou, à sua maneira, um símbolo de resistência no mundo corporativo.

Se tem uma frase de Cristina que resume tudo, é essa. “Eu não consigo conciliar tudo, por isso sempre falo que tenho duas prioridades: a minha família e o Nubank”, declarou a executiva em entrevista à CNN Brasil. Nada de romantizar a rotina impossível de “dar conta de tudo”. Segundo ela, o segredo para conseguir conciliar maternidade e carreira é saber escolher as batalhas, com a paz de espírito de que ninguém consegue abraçar o mundo inteiro.
Uma fala que é, ao mesmo tempo, um alívio e um convite: o de largar a culpa de lado e aceitar que prioridade também é sobre o que a gente escolhe deixar de lado.
Por trás da executiva de sucesso, existe uma mulher que também tropeçou pelo caminho, e não esconde isso. “Sempre busco usar os percalços para fazer diferente e superar. A realidade é que nada que vai te dar orgulho vai ser fácil. Tem uma frase que eu sempre falo, que é ‘se fosse fácil, estava feito’. É óbvio que vai ser difícil, mas não é impossível”, contou em entrevista à revista Exame.
E o autoconhecimento, segundo ela, é a base de tudo. “O fundamento da inteligência emocional é o autoconhecimento. É entender quem somos, quais são as nossas forças e fraquezas. Precisamos disso mais do que oxigênio para respirar”, refletiu a empresária.

Uma bandeira que vai além do próprio sucesso
Cristina não fala sobre maternidade só pra falar da própria vida. Ela desenvolveu um forte discurso de que as empresas devem possibilitar o avanço de carreira das mulheres ao mesmo tempo em que elas podem investir na constituição da família. Como reflexo disso, o Nubank oferece 180 dias de licença-maternidade e 120 dias de licença para o parceiro ou parceira de quem acabou de ter um bebê, uma política que, na prática, garante quatro meses de licença para qualquer funcionário com um recém-nascido em casa.
E ela mesma reconhece que sucesso não pode ser medido só pelo currículo. “Sucesso não se trata só de trabalho e carreira. Temos que considerar que somos cidadãos”, ponderou em entrevista à Exame.
Nubank é a única empresa fundada por uma mulher a alcançar uma avaliação de mercado de mais de 10 bilhões de dólares, e Cristina segue sendo lembrada como uma das protagonistas dessa conquista histórica para o empreendedorismo feminino brasileiro. Mais do que números, o que fica é a coragem de admitir os próprios limites em praça pública, numa época em que tantas mulheres ainda se cobram pela perfeição impossível de “dar conta de tudo”.
Leia também: Pix já é aceito no exterior e custa menos que o cartão de crédito, veja onde e como usar

