Déia Tavares: a mulher que transformou o closet em um universo de luxo, história e propósito

“O verdadeiro luxo deixou de ser apenas algo caro ou novo. Trata-se de fazer escolhas conscientes, possuir itens raros e...

Foto: Kallyston Fotografia / Reprodução

“O verdadeiro luxo deixou de ser apenas algo caro ou novo. Trata-se de fazer escolhas conscientes, possuir itens raros e consumir com propósito.”

Em um mercado saturado pelo fast fashion e pela efemeridade das tendências digitais, a busca pelo autêntico se tornou o ativo mais valioso da alta moda. O resgate do valor real das peças, da durabilidade e da curadoria afetiva pavimentou o caminho para o fortalecimento da moda circular no Brasil. É exatamente na interseção entre sofisticação, autenticidade e responsabilidade socioambiental que surge a trajetória marcante do Bazar Déia Tavares.

Liderado por Andréia Tavares, empresária e embaixadora da moda sustentável, o projeto evoluiu de um acervo pessoal movido por paixão para um negócio 100% digital em franca expansão. Em uma entrevista exclusiva para o Nosso Bloco TV, a empresária revela como a curadoria minuciosa de itens second hand e o contato transparente com o público vêm ressignificando a experiência de consumo de luxo no país.

Foto: Kallyston Fotografia / Reprodução

Do closet ao empreendedorismo

Há quem diga que toda grande história de sucesso começa em um momento de silêncio. Com Déia Tavares, não foi diferente. Em 2020, isolada por causa da Covid-19, a empresária decidiu fazer algo que parecia ser mais uma atividade da vida cotidiana: organizar o próprio closet. Não imaginava que ali, entre bolsas, roupas e memórias, nasceria um negócio de tanto impacto:

“A ideia se iniciou quando tive Covid e, para não deixar pensamentos negativos me influenciarem, eu comecei a organizar o closet, retirar peças que não utilizava mais, e despertei um olhar para o lado empreendedor”, relembra.

A pandemia trouxe, para muita gente, incerteza. Para Déia, trouxe clareza. O gesto de organizar suas roupas e acessórios, algo tão comum, tão doméstico, revelou algo que já fazia parte de sua rotina havia anos, mesmo sem nome ou rótulo. “Eu já praticava a moda consciente sem saber muito como funcionava. Sempre fiz doações, seja para a família ou para instituições”, conta. A partir daí, a curadoria pessoal virou negócio: nascia o Bazar Déia Tavares, embalado pela proximidade que ela já tinha com seus seguidores nas redes sociais. “Muita gente me segue, gostam dos meus conteúdos e elogiam muito o meu estilo.”

Hoje, Déia resume o espírito da marca em uma frase que poderia estar estampada na porta de qualquer boutique: “O Bazar Déia Tavares representa uma moda com propósito, onde estilo, autenticidade e curadoria se encontram para valorizar a beleza e a identidade de cada pessoa.”

Quando o luxo pessoal virou curadoria: Louis Vuitton, Gucci, Dior e a arte de dar nova vida às peças

O que começou com roupas pessoais logo ganhou um capítulo mais sofisticado. “A ideia de inserir peças de luxo no Bazar Déia Tavares surgiu quando eu quis retirar algumas peças do meu closet, pois sempre que ganhava ou comprava uma, eu retirava alguma que já não usava mais com tanta frequência”, explica.

O “empurrão” da curadoria de peças fora do seu acervo pessoal veio de uma amiga, que perguntou se Déia não poderia vender alguns de seus óculos de grife que já tinham “encerrado o ciclo” e estavam sem uso. Dali em diante, as curadorias de luxo se tornaram parte do universo Déia Tavares, com roupas de grife, bolsas, óculos e acessórios de nomes como Louis Vuitton, Gucci, Dior, Victor Zerbinato e Yves Saint Laurent que passaram a integrar edições especiais do bazar.

Há, inclusive, uma peça que carrega um significado particular na história pessoal da empresária:

Eu sempre tive uma boa relação com o mundo da moda e convivia com o luxo. Muita gente acha que a moda consciente se trata de não consumir, mas não é sobre isso, é sobre consumir com consciência. Morei no Japão em 2005, eu ainda muito jovem, e comecei a ter contato com o luxo, porém eu já praticava a moda consciente sem saber, hein! Fiz a minha primeira compra de uma bolsa de grife, uma Louis Vuitton, em um bazar. Essa bolsa hoje conta uma outra história, pois a dei para a minha mãe.

É esse tipo de trajetória de mão em mão, de história em história, que ela busca preservar em cada peça vendida.

Foto: Reprodução / Redes sociais

A curadoria como assinatura: os critérios por trás de cada peça aprovada

Se existe um diferencial que explica por que clientes confiam de olhos fechados nas seleções de Déia, é o rigor por trás da curadoria.

“O processo de curadoria do Bazar Déia Tavares é pautado pela qualidade, autenticidade e estilo”, afirma. Os critérios avaliados incluem qualidade e acabamento, estilo e atualidade, marca e valor agregado, originalidade e potencial de uso. Só depois de aprovada é que a peça ganha as vitrines digitais: “cada peça é organizada, fotografada, precificada e preparada para apresentar no Instagram. Eu também faço vídeos

A autenticidade, tema sensível em qualquer mercado de itens de luxo usados, é tratada como prioridade. “Os principais aspectos avaliados são etiquetas, qualidade do material, padrões de fabricação e design compatíveis com o original, histórico e procedência da peça”, detalha Déia, reforçando o compromisso da marca: “oferecer credibilidade para que cada cliente tenha uma experiência de compra segura.”

E há um detalhe que virou estratégia de vendas e prova de que, no fim das contas, moda também é conexão: “O Bazar Déia Tavares trabalha com muitas peças, seja de grife ou não. A nossa preocupação é a qualidade de peças e acessórios, e assim garantir a satisfação dos nossos clientes. Uma coisa que eu tenho observado muito, e por isso faço muito material como fotos e vídeos para apresentar o produto, é que minhas clientes amam a peça que eu estou usando. Aí eu vendo muito mais quando eu visto a peça.”

Foto: Reprodução / Redes Sociais

O novo luxo: por que ter uma peça única vale mais do que ter uma peça nova

Se antes o luxo era medido pelo preço da etiqueta, hoje ele é medido por outra régua e Déia observa essa mudança de perto, todos os dias, e em cada edição especial do bazar.

“A second hand está sendo vista com bons olhos hoje. Os consumidores buscam peças que tenham história, expressem personalidade e ofereçam exclusividade, o que é mais difícil encontrar na produção em massa, no fast fashion”, analisa. Para ela, a sofisticação do second hand e da slow fashion mora exatamente na seleção cuidadosa: “quando o bazar seleciona suas peças com cuidado, ele transforma o consumo em uma escolha de valor e não apenas de preço.”

É uma inversão de lógica que também é resposta a uma lacuna do mercado tradicional: “No varejo tradicional não se encontram mais peças com marcas de alta qualidade, edições limitadas e atemporais. Isso tem ressignificado o pensamento do luxo, de ter uma peça nova para o ter uma peça única.”

Na visão de Déia, o próprio consumidor de alto padrão amadureceu. “O consumidor do luxo está mais consciente. Ele percebeu que, consumindo com inteligência, vai conseguir peças únicas que possuem valores agregados e ainda assim vai conseguir economizar. O verdadeiro luxo deixou de ser apenas algo caro, passou a se fazer escolhas conscientes, possuir itens raros e consumir com propósito.”

E o preconceito que ainda cercava os brechós de grife? Está diminuindo, segundo ela observa em sua própria comunidade. “Ainda existe um preconceito com brechós e afins, mas é muito pouco. Acredito que essa moda consciente, esse estilo com propósito, está chegando com outra perspectiva.”

Foto: Reprodução / Redes Sociais

Moda circular e sustentabilidade: o equilíbrio entre consumir e preservar

Falar em luxo e em sustentabilidade no mesmo parágrafo ainda soa, para muita gente, como contradição. Déia discorda, e explica por quê.

“Para conseguirmos esse equilíbrio entre a moda sustentável e o luxo, precisamos, ao invés de associar o luxo apenas com novidade e preço, associá-lo com qualidade, longevidade, responsabilidade socioambiental e preservação do valor ao longo do tempo”, defende. Para ela, a moda circular e o second hand cumprem um papel concreto: “buscam reduzir o desperdício, o uso de recursos e prolongar o ciclo de vida das roupas.”

Ao comparar o cenário brasileiro com mercados mais maduros, Déia, que está posicionada como uma das embaixadoras da moda sustentável no Brasil é direta: “O Brasil ainda está em desenvolvimento. Na Europa, a moda sustentável já é cultural, e além do consumidor já ter essa consciência, existem regulamentações rigorosas, como o chamado Pacto Verde Europeu.” Um lembrete de que, se o consumo consciente já é tendência por aqui, ainda há um caminho, regulatório e cultural a percorrer.

Sobre o que vem a seguir, sua leitura é a de uma virada de chave estrutural: “As maiores tendências para os próximos anos no setor da moda sustentável serão repensar todo o modelo de produção e consumo. O mercado sustentável não vai ser apenas um nicho, vai passar a ser critério de competição. A preocupação não será mais vender mais, e sim gerar mais valor com menos impacto.”

Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Um negócio 100% digital: Instagram, lives e a proximidade como estratégia

O Bazar Déia Tavares nunca teve loja física e essa escolha é parte central da estratégia. “A escolha de ter o bazar como um negócio 100% digital foi porque acredito que foi mais econômico, facilitou, porque eu viajo muito, não preciso de funcionário […] é menos burocrático e eu consigo trabalhar com o público que já existe.”

O Instagram é o coração da operação e também o motivo de cada edição terminar com uma live. “Quando já tem poucas peças, aí consigo estreitar o vínculo com os meus seguidores, que tanto amo”, conta. A relação com o público, aliás, é construída no dia a dia, sem filtros de personagem: “Eu trabalho de uma forma bem orgânica, sou muito realista, e isso me aproxima do meu público. Estou sempre ali, mostrando o meu dia a dia.”

Curiosamente, o perfil oficial do Bazar Déia Tavares no Instagram é recente, resultado de um processo natural de profissionalização. “Era tudo vinculado ao meu pessoal mesmo. Agora estou me profissionalizando nesse sentido”, diz, aos risos. O público que a acompanha é majoritariamente feminino, entre 20 e 60 anos, e plural em trajetórias: “donas do lar, empresárias, empreendedoras, musicistas, influencers […] mulheres empoderadas e aguerridas. Pessoas que se identificam comigo, me admiram e sabem que minhas peças vão seguir contando lindas histórias com elas.”

O maior desafio, ela admite sem rodeios, é manter viva essa relação construída diariamente: “o grande desafio é manter esses seguidores, esses clientes, né? Que estão ali, que me admiram, que gostam dos meus conteúdos e através disso eu criei o bazar, né? Então foi uma coisa buscando a outra. Então além de trazer sempre o público novo, então tem que estar sempre em busca, né? Então são desafios todos os dias..”

Foto: Reprodução / Redes Sociais

O futuro: mais curadorias, mais conexões, mais propósito

Ao ser perguntada sobre os próximos passos, Déia responde com a energia de quem enxerga o negócio como parte de algo maior, o que ela chama de “Universo DT”. “Além do bazar, eu tenho um mundo todo DT […] estou conectada a vários nichos, e isso tem me trazido evolução, e acredito que vou seguir nela.”

Entre os planos, está a ampliação das curadorias com peças de terceiros, não apenas do próprio guarda-roupa. “Já faço curadoria com peças terceirizadas, e acho que o meu pensamento é evoluir. Não é igual ao Zeca Pagodinho, ‘deixa a vida me levar’. Não, a gente tem que ter foco, tem que saber para onde vai.”

Para quem ainda hesita em ingressar no universo do second hand, seja para desapegar de itens encostados no armário ou para adquirir a primeira peça de grife, a recomendação da especialista é clara: desapegue-se do preconceito: “Se jogue! Porque é uma responsabilidade social. […] Uma das práticas da moda sustentável é o bazar, é a reutilização. Isso é um pensamento inteligente, e a gente tem que divulgar, falar, e não ter receio nem medo, nem de comprar, nem de vender. Não é nem questão de tendência: é uma responsabilidade que temos que assumir como nossa.”

Entre bolsas com história, óculos que já contaram outros capítulos e roupas que ganham uma segunda, ou terceira vida, Déia Tavares prova que o verdadeiro luxo, hoje, não está apenas na etiqueta. Está na escolha.

Veja também: Melhor amiga da mãe de Virgínia surpreendeu a todos após essa atitude

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