Chapéu de aba larga, bota de couro gasto, fivela grande no cinto. Por muito tempo, esses itens carregaram um estigma injusto: eram vistos como “coisa de caipira”, peças ligadas apenas à lida na roça, distantes do que se considerava “moda de verdade”. Esse cenário mudou, e mudou radicalmente. Hoje, o estilo country deixou de ser restrito aos rodeios e ocupa espaço nas semanas de moda, nas redes sociais, nas lojas de shopping e no closet de quem talvez nunca tenha pisado numa fazenda na vida, mas que sente, ao vestir aquela bota, algo parecido com voltar pra casa.

Um dos momentos que marcaram essa virada global, foi a chegada do álbum “Cowboy Carter”, de Beyoncé, lançado em 2024. A cantora já vinha sinalizando a estética desde que apareceu de chapéu no Grammy daquele ano, mas foi o disco, com faixas como “Texas Hold ‘Em”, que transformou o “cowboycore” em fenômeno dentro da cultura pop. Ela não estava sozinha nesse movimento: meses antes, Pharrell Williams já havia levado a temática western para a semana de moda masculina em Paris, à frente da grife Louis Vuitton, com a coleção “LVirginia”, que misturou jeans bordado, franjas de couro e detalhes turquesa à tradição da grife francesa.

O impacto foi rápido e perceptível em toda a indústria. Segundo a consultoria de tendências WGSN, referência mundial no setor, o movimento já vinha sendo mapeado desde 2023 dentro de macrotendências ligadas à ancestralidade e ao resgate de tradições, mas foi o duplo impacto de Pharrell e Beyoncé que confirmou a virada da estética country para o mainstream global da moda naquele momento. Não por acaso: quando duas potências culturais tão diferentes escolhem a mesma linguagem visual, é sinal de que ela toca em algo maior do que estética, ela toca em memória.

Da margem ao topo, sem perder a raiz
Um dos fatores que explicam essa virada de percepção é justamente a forma como a estética foi reinterpretada. Analistas de moda apontam que o estilo western de 2026 passou por uma transformação para se tornar algo mais funcional e útil para ser usado em diversas ocasiões, desde um chapéu de feltro bem cortado, bota western elegante, jaqueta de couro estruturada, sempre com um toque de sofisticação que dialoga com o guarda-roupa do dia a dia.

Xadrez, franjas, camurça, animal print e tons terrosos completam o repertório visual da tendência, que hoje aparece tanto em peças statement de grifes de luxo quanto em looks de rua. E o mais bonito nisso tudo é que, mesmo elevado ao luxo, o country não perdeu a alma: continua remetendo à terra, ao trabalho no campo, ao avô de bota gasta, à avó com lenço na cabeça, ao almoço de domingo em família.

O reflexo dessa tendência vai muito além da roupa no corpo. A estética country hoje invade vitrines, editoriais de moda, decoração de interiores, ambientação de festas e eventos, ganhando o status de verdadeiro estilo de vida, e não apenas mais uma trend passageira das redes sociais. Nas ruas de cidades como Tóquio, Londres e São Paulo, o chamado “cowboy urbano” já é figura recorrente, misturando peças vintage com sportswear contemporâneo, prova de que essa estética atravessa fronteiras culturais e ainda assim carrega o mesmo recado: raiz, natureza e chão.

Por que o country nunca sai completamente de moda?
Diferente de outras tendências que vêm e vão em poucos meses, o estilo raiz carrega algo que vai muito além do figurino: uma identidade afetiva. Ele remete à vida no campo, à ideia de comunidade reunida ao redor de uma mesa farta, à festa com música ao vivo, à terra que sustenta e que também acolhe, à tradição passada de avô para pai, de pai para filho.
Num mundo cada vez mais acelerado, líquido, descartável e hiperconectado, onde tudo parece passageiro, substituível e as relações humanas cada vez mais distantes fisicamente, essa estética resgata exatamente o oposto disso: pertencimento e afetividade. É por isso que vestir uma bota western ou um chapéu de feltro, hoje, não é só seguir uma tendência da moda, é, de alguma forma, se reconectar com as raízes campesinas, se reconciliar com a terrra e ter aquela sensação de chão firme debaixo dos pés.

Talvez seja exatamente por isso que o country nunca desaparece de vez do radar da moda. Ele pode ficar mais discreto por temporadas, mas sempre volta com força total. Por trás da fivela estilizada, das franjas e do chapéu, existe uma narrativa que atravessa gerações, e que fala direto ao coração de quem, mesmo morando na cidade grande, nunca deixou de carregar um pedaço do campo dentro de si.
Leia também: “Primeira-dama do sertanejo”: Andressa Suíta chama a atenção com detalhe de fé na Cavalgada do Embaixador

