Halloween: da noite dos mortos celtas ao Dia do Saci, a história do Dia das Bruxas no Brasil

Neste sábado (31), a data que nasceu há mais de dois mil anos nas Ilhas Britânicas e atravessou o Atlântico...

Neste sábado (31), a data que nasceu há mais de dois mil anos nas Ilhas Britânicas e atravessou o Atlântico nas malas de imigrantes irlandeses movimenta festas, escolas e lojas brasileiras, e divide espaço com o folclore nacional

Abóboras com sorriso sinistro, fantasias de bruxa, esqueleto e vampiro, crianças batendo de porta em porta atrás de doces. Em 31 de outubro, o Halloween, conhecido no Brasil como Dia das Bruxas, volta a tomar condomínios, escolas, casas noturnas e shoppings. Em 2026, a data cai em um sábado, o que reforça o clima de festa e a expectativa do comércio. Mas de onde veio, afinal, essa tradição que mistura medo, diversão e consumo? A resposta passa por druidas, fogueiras, santos católicos, um ferreiro enganador e até pelo Saci-Pererê.

Qual é a origem do Halloween?

A raiz mais aceita da celebração é o Samhain (pronuncia-se algo como “sôuin”), festival dos povos celtas, que habitavam regiões onde hoje ficam Irlanda, Escócia e parte da Inglaterra. Ele marcava o fim da colheita e a chegada do inverno, a estação escura e difícil, e funcionava como uma espécie de ano-novo celta. A festa durava cerca de três dias, com fogueiras coletivas, rituais conduzidos por druidas e presença considerada obrigatória pela comunidade.

A crença central era a de que, nessa virada, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos ficava mais fraca, e os espíritos poderiam circular entre as pessoas por uma noite. Daí vem uma das tradições mais populares da data: usar máscaras e fantasias, originalmente para se disfarçar entre os espíritos e evitar ser reconhecido por eles.

Vale um aviso de historiador: pouco se sabe com exatidão sobre os rituais antigos, porque boa parte dos registros chegou por meio de monges cristãos que escreveram séculos depois. Por isso, muitos detalhes populares sobre o Samhain (inclusive os mais sombrios) são reconstruções e devem ser lidos com cautela.

De Samhain a “Hallows’ Eve”: como a Igreja entrou na história

Com a expansão do cristianismo, as festividades pagãs foram sendo absorvidas e reinterpretadas. A celebração cristã de Todos os Santos, em 1º de novembro, ocupou o calendário da região, e a noite anterior passou a ser chamada de “Hallows’ Eve”, a véspera de Todos os Santos. Dessa expressão, com o passar dos séculos, nasceu o nome Halloween.

Alguns costumes de colher doações de porta em porta e de partilhar alimentos nessa época também aparecem em registros ligados às antigas festas e às celebrações cristãs, e são apontados como antepassados do atual “doces ou travessuras”.

Por que o Halloween é tão forte nos Estados Unidos?

A resposta está na imigração. Foi no século 19, sobretudo com a chegada de irlandeses fugindo de crises, que a tradição se consolidou em solo americano. Lá, a festa ganhou cores próprias: o laranja, o preto e o roxo, as casas decoradas, o desfile de fantasias e a febre de doces. Com o tempo, o cinema, a TV e a publicidade transformaram o Halloween em um fenômeno global e, ao mesmo tempo, em uma das datas mais lucrativas do varejo americano. A federação nacional do varejo dos EUA (NRF) estimou, para 2025, cerca de US$ 13,1 bilhões em vendas ligadas à data.

Símbolos do Halloween e o que cada um significa

Abóbora (jack-o’-lantern): a lanterna de abóbora vem de uma lenda irlandesa sobre Jack, um homem ardiloso que enganou o Diabo e, ao morrer, não foi aceito nem no céu nem no inferno. Condenado a vagar pela escuridão, passou a carregar uma brasa dentro de um vegetal oco. Curiosidade: na versão original, a lanterna era feita de nabo; a abóbora entrou em cena na América, onde era mais abundante e mais fácil de esculpir.

Fantasias: herança direta da ideia de se camuflar entre os espíritos. Hoje, bruxas, esqueletos, zumbis e vampiros seguem entre as favoritas, ao lado de personagens do cinema, das séries e dos streamings.

Doces ou travessuras: o ritual em que crianças fantasiadas batem em portas pedindo doces tem raízes em antigas práticas de pedir oferendas e comida nessa época do ano. Em versão moderna, quem não dá o doce “arrisca” uma brincadeira.

Bruxas e criaturas sombrias: curiosamente, as bruxas não estão entre as figuras originais do Samhain. Elas foram incorporadas pela cultura popular ao longo do tempo e acabaram batizando a data em países como o Brasil.

E no Brasil? Como o Dia das Bruxas chegou por aqui

Embora não seja uma tradição de origem brasileira nem feriado, o Halloween se espalhou pelo país pela influência do cinema, da televisão, das escolas de idiomas e, mais recentemente, das redes sociais. Hoje, a data aparece em festas infantis, eventos escolares, baladas temáticas, parques e atrações de lazer, e a prática do “doces ou travessuras” já é vista em prédios e ruas residenciais de várias cidades.

O comércio também percebeu o movimento. Para 2026, a Associação Brasileira de Artigos para Festas (Abrafest) projeta alta de 12% nas vendas ligadas ao Halloween. Em Brasília, uma sondagem da Fecomércio-DF mostrou que 85% dos lojistas consultados esperam vendas entre 5% e 20% maiores que as do ano passado, com acessórios e decoração à frente das fantasias completas na expectativa de saída. Em Belém, lojistas também projetam crescimento, e há relatos de aumento na procura por ateliês e aluguel de fantasias. Em muitos segmentos, especialistas já falam do Halloween como uma espécie de “mini Black Friday” antecipada, que também serve de termômetro para as festas de fim de ano.

Dia do Saci: o 31 de outubro com sotaque brasileiro

Enquanto o Halloween ganha espaço, o Brasil também comemora, na mesma data, o Dia do Saci. A ideia surgiu a partir de um projeto de lei de 2003 (PL nº 2.762/2003) e foi pensada para valorizar o folclore nacional e reforçar símbolos genuinamente brasileiros diante da popularização de uma festa estrangeira. O Saci-Pererê, menino travesso de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, é um dos personagens mais emblemáticos do imaginário popular, estudado por nomes como Monteiro Lobato e Câmara Cascudo.

A história do Saci na cultura urbana, aliás, é anterior ao Dia das Bruxas por aqui: registros apontam que a luta para dar visibilidade ao personagem começou em 1917, incentivada por Monteiro Lobato. Defensores do Dia do Saci costumam repetir que a proposta não é acabar com o Halloween nem impedir ninguém de se divertir, e sim lembrar que o Brasil tem seu próprio repertório de mitos, como a Cuca, o Curupira, o Boitatá, a Mula sem Cabeça e o Lobisomem. Há quem diga que as duas festas combinam: ambas falam de travessura, medo e imaginação.

Perguntas frequentes sobre o Halloween

Halloween é feriado no Brasil? Não. A data é comemorada informalmente, sem feriado nacional. Em 2026, ela cai em um sábado.

Halloween e Dia das Bruxas são a mesma coisa? Sim. “Dia das Bruxas” é o nome popular do Halloween no Brasil, ainda que as bruxas não estejam na origem celta da festa.

Por que o Halloween é em 31 de outubro? Porque é a véspera de Todos os Santos (1º de novembro) e coincide com a época do antigo Samhain, que marcava o fim do verão e da colheita no hemisfério norte.

Por que a abóbora é símbolo do Halloween? Por causa da lenda irlandesa de Jack, que vaga com uma lanterna. Os imigrantes passaram a usar abóboras no lugar de nabos na América.

O que é o Dia do Saci? É a data brasileira de 31 de outubro dedicada ao personagem do folclore nacional, criada para valorizar as tradições do país.

Seja com fantasia, com doce na mão ou com uma boa história de assombração contada à luz de vela, o 31 de outubro virou um encontro de culturas no Brasil. De ritual celta de fim de colheita a vitrine do varejo, o Halloween prova que as tradições viajam, se transformam e ganham novos sotaques pelo caminho. E, no nosso caso, ainda dividem a noite com um saci travesso.

Leia também: Antes do grito de Dom Pedro I, uma mulher estava à frente da Independência do Brasil

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